Sábado, 16 de maio de 2026
Mobilidade

O transporte público que as cidades médias brasileiras precisam

Quando o debate sobre mobilidade urbana no Brasil acontece, ele quase sempre gira em torno das grandes metrópoles. São Paulo e seu metrô superlotado. Rio de Janeiro e seus BRTs problemáticos. Brasília e seu modelo de cidade pensada para o carro. Mas há um Brasil de cidades médias — com populações entre 100 mil e 500 mil habitantes — que enfrenta seus próprios desafios de mobilidade, com muito menos atenção e recursos.

Nessas cidades, o transporte público geralmente significa um sistema de ônibus municipais com frota envelhecida, linhas que não cobrem os bairros mais periféricos e horários que não atendem quem trabalha em turnos. O resultado é uma dependência crescente do automóvel particular e das motos — com todos os custos sociais e ambientais que isso implica.

O que funciona em outros países

Cidades de porte médio em países europeus e latino-americanos com boas práticas de mobilidade mostram que o problema não é de escala, mas de prioridade política e modelo de gestão. Curitiba, que se tornou referência mundial em transporte público, não é uma metrópole — é uma cidade de porte médio que fez escolhas consistentes ao longo de décadas.

O BRT (Bus Rapid Transit), quando bem implementado, pode oferecer uma solução eficiente e relativamente barata para cidades médias. Faixas exclusivas para ônibus, integração tarifária, terminais bem localizados e frota moderna são elementos que, combinados, podem transformar a experiência do transporte público.

Os obstáculos brasileiros

No Brasil, a implementação de sistemas de transporte eficientes nas cidades médias esbarra em obstáculos conhecidos: falta de recursos municipais, resistência política de grupos ligados ao transporte privado, planejamento urbano que historicamente privilegiou o automóvel, e uma cultura de gestão que tende a tratar o transporte público como um serviço de segunda categoria.

Mas há exemplos positivos que mostram que é possível avançar. Algumas cidades médias brasileiras têm conseguido modernizar seus sistemas de ônibus com apoio de financiamento federal e parcerias com o setor privado. A chave parece ser a combinação de vontade política, planejamento técnico sólido e participação da comunidade no processo de decisão.

Jorge Figueiredo Urbanista e jornalista. Especializado em mobilidade urbana e planejamento de cidades.